quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Fresta de luz na escuridão

Era um antigo cinema. A pequena sala acomodava no máximo 45 pessoas com suas poltronas de um vermelho escarlate encardido. Localizava-se no centro velho de São Paulo. Um homem trajando roupa social e suéter vermelho, apesar do calor, entrou a passos largos e alegres e ficou diante do público e de costas para a tela amarela feito seu sorriso de fumante e começou a falar bem disposto ao público:

- Muito boa noite, sejam muito bem-vindos à casa de cinema “A Sétima Arte”! Meu nome é Arnaldo e... – de repente colocou uma das mãos no bolso detrás da calça como se procurasse um objeto. - ... sou o lanterninha desse cinema – disse apontando o acessório para a cara de um senhor que dormia na poltrona, e acendia e apagava a lanterna, acendia e apagava, até a hora em que o velho acordou assustado e tapando os olhos com as mãos como se alguém tivesse aberto as janelas e o sol incomodasse a visão de um recém-acordado. Arnaldo voltou a falar:

­- Hoje é uma data muito especial, pois esta casa de cinema está completando 70 anos! E em comemoração a esta data preparamos um filme especial a todos... a todos... a todos vocês cinco – a sala estava praticamente vazia. – Este cinema pertenceu ao meu avô Franz. Vovô era um alemão de origem judaica que tinha um cinema em Berlim, que havia herdado de meu bisavô. Durante a exibição dos filmes vovô incluia mensagens subliminares contra o nazismo de Hitler, e durante a Segunda Guerra Mundial teve que fugir para o Brasil para não ter que ir para um campo de concentração. E decidiu recomeçar sua vida aqui em São Paulo. Montou o cinema, conheceu minha avó, se casou e teve meu pai. Vovô era um apaixonado por cinema. Exibia filmes clássicos do século 20, eram filmes do cinema mudo, cinema francês, cinema italiano, etc. Vovô e eu éramos muito apegados. Ele usava um paletó cinza, uma boina francesa marrom e sempre andava com com uma bengala no braço esquerdo, nunca no direito, pois se dizia de esquerda, comunista de carteirinha. Andava engraçado feito Charles Chaplin. Parecia um lunático. Ele sempre me convidava pra ver seus filmes em seu cinema, e eu assistia encantado, nem piscava, só faltava pular pra dentro da tela, pra viver aqueles vilões e heróis dos filmes de bang-bang. Um dia confidenciei ao vovô que meu sonho era trabalhar com cinema. Aí ele me contratou pra ser pipoqueiro. Acho que ele não entendeu direito o que eu quis dizer... Depois de algum tempo trabalhando como pipoqueiro vovô me promoveu a lanterninha, cargo que exerço há quase trinta anos. Como lanterninha já presenciei cenas interessantes. Vi gente chorando, gente rindo, se emocionando, casais se beijando e se agarrando. Já vi até gente comendo sujeira de nariz. Acho que quem comia sujeira de nariz fazia isso por causa do preço da pipoca. Judeu adora ganhar dinheiro. Além de pipoqueiro e lanterninha eu nunca tive outros trabalhos. As pessoas me questionam sobre por que eu continuo aqui se eu ganho uma mixaria. Na verdade eu não estou aqui por dinheiro, minha família tem muitas posses. Estou aqui porque o cinema é a minha vida. Acho que vovô morreu feliz. Ele morreu de enfarte aqui dentro mesmo assistindo ao seu filme favorito: “La dolce vita”, de Fellini. Inclusive ele morreu nessa poltrona que você está sentada – disse Arnaldo apontando para uma moça ruiva, que se levantou com o rosto totalmente pálido e se retirou rapidamente da sala. – Volta aqui! Volta aqui... Droga, menos um... Bom, como era uma tradição de família, o cinema ficou com meu pai. Nos tempos do vovô tínhamos três salas. Papai construi mais duas. Como um bom judeu que não gosta de abrir a carteira, me deu a função de operador dos projetores de filmes. Papai não tinha bom gosto para filmes. Exibia filmes comerciais americanos de péssima qualidade e foi deixando de passar as películas clássicas do vovô. Em compensação suas salas estavam sempre cheias. Mas eu sentia falta dos filmes do vovô e não aguentava mais ter que trabalhar em salas que só exibiam lixo americano. Decidi comprar uma das salas de papai, voltei a expor os filmes antigos e comecei a mostrar filmes que eu estava descobrindo. Eram filmes independentes argentinos, russos, indianos, brasileiros, entre outros. Papai morreu de derrame e o cinema ficou comigo e minha irmã. Acabei vendendo minha parte pra ela, pra um dia poder passar para seus filhos. Eu não sou pai. Elisabeth nunca quis ter filhos.

Minha sala estava quase sempre vazia. Havia vezes em que eu podia sentar numa poltrona e assistir a filmes sozinho. Foi aí que começaram a acontecer coisas estranhas. Quando as luzes da sala se apagavam para a execução dos filmes eu via um vulto passar rapidamente pela sala. Eu sentia medo. Muito medo. Pensei que se tratava dos espíritos do vovô ou do papai. Pensei até que era o Chico Xavier que viera para assistir o filme que fizeram em sua homenagem. Mas não. Um dia tive coragem e liguei a lanterninha na direção do vulto. Era uma mulher. Pelo vestido só podia ser uma mulher. Ou um travesti. Não sei. O vulto era muito rápido. Sempre ao final das sessões eu passava de fileira em fileira, de poltrona em poltrona com a minha lanterna para ver se ninguém havia esquecido nada. Foi num desses procedimentos de rotina que eu comecei a realmente ficar com medo. Enquanto procurava objetos perdidos entre as poltronas comecei a encontrar fitas. Eram fitas de filmes. A cada dia eram filmes novos, filmes que nunca vi. Filmes que me deliciavam e que expressavam tudo que eu sentia. A cada dia eu ficava mais surpreso e não sabia como explicar aquela situação e aquela sensação. As poucas pessoas que freqüentavam a minha sala eram exóticas e não se importariam em ver aqueles filmes. E eu comecei a exibi-los. O vulto sempre aparecia. Meu medo também. Eu o via no começo e no final da sessão. E em pânico, após os filmes eu corria pra lanchonete do cinema pra tomar água com açúcar. Às vezes eu via por lá, de canto de olho, uma mulher, que tinha o estranho hábito de comer pipoca doce com manteiga. Ela devia freqüentar a minha sala. Era exótica. Porém bela, e aquele rosto me lembrava alguém. As fitas abandonadas tinham cada vez filmes mais incríveis. Até o dia em que encontrei aquele filme. “Lira libertina”. Um filme independente brasileiro. Levei o filme pra casa e confesso que meus pés perderam o chão. Aquele filme merecia ser assistido numa grande tela para demonstrar sua grandeza. Como às quartas-feiras minha sala estava sempre vazia resolvi assisti-lo sozinho. Coloquei o cartaz na porta do cinema pra poder dividir aquele momento intenso com alguém, mas deu o horário da sessão e ninguém apareceu. Sentei numa poltrona no meio da sala, apagaram-se as luzes e os trailers começaram. Senti um calafrio quando senti a presença do vulto. Depois percebi uma segunda presença e levei um susto quando alguém na poltrona detrás perguntou se podia se sentar ao meu lado. Com medo de ficar sozinho com o vulto eu disse que sim. Era a mulher da pipoca doce com manteiga. Ela acomodou-se a meu lado sem me olhar e sem dizer mais nada. Constrangido com aquele silêncio soltei sem querer que aquele era meu filme favorito. Ela disse o mesmo. Surpreso em saber que alguém além de mim já havia visto aquele filme, derrubei sem querer o saco de pipoca, e quando me agachei para juntar os grãos ela fez o mesmo, e sem querer tocamos um a mão do outro. Fiquei estonteado quando vi aqueles olhos brilhantes. Reconheci aquele olhar e aquela voz. Sim, era ela. Era Clarissa. Sou em quem deixa as fitas, disse ela. Puxou-me pelo suéter e me beijou. Clarissa estudou comigo no colegial. Éramos parecidos, gostávamos das mesmas coisas, freqüentávamos os mesmos lugares. Sempre quis dizer o que sentia para Clarissa, mas tinha a Beth. Elisabeth. Elisabeth foi minha mulher. Namoramos desde o colegial. Elisabeth era linda. E fútil. Não tínhamos nada a ver um com o outro, eu só estava com ela porque ela era linda e ela estava comigo porque eu era rico. Juntamos o útil ao agradável e nos casamos. Beth era modelo e vivia viajando pelo mundo. As poucas vezes que nos víamos era só pra discutir sem razão aparente. Pra tentar deixá-la mais perto de mim pedi que realizasse um sonho meu: ter um filho. Nunca, vai acabar com o meu corpo e a minha carreira, dizia ela. E me traía. Beth ficou em êxtase com o valor da pensão que teve direito quando acabei o casamento. O dia do casamento foi a última vez que vi Clarissa. Aí ela apareceu quase vinte anos depois. Clarissa era o vulto do cinema e disse que voltou de Londres pra me procurar quando soube do meu divórcio. Ela era cineasta. “Lira libertina” foi um filme que escreveu e dirigiu. Vivemos tudo o que era pra se ter vivido no passado. Assistíamos a vários filmes, saíamos por aí pra nos descobrir e nos amávamos pelos cantos da cidade. E comíamos pipoca doce com manteiga – quando se lembrou da pipoca doce com manteiga Arnaldo teve um riso frouxo de alegria – Fazíamos planos. Teríamos um filho! Minha vida com Clarissa era vários gêneros de filmes que acabavam e sempre recomeçavam reinventados e sem fim.
Minha irmã descobriu um câncer em estado avançado e ficou num leito de hospital. O cinema agora pertencia ao Mauro, seu marido. Mauro era um judeu que tinha cabeças de gado no Mato Grosso e não se importava em levar adiante o cinema da minha família, pensava até em se desfazer dele. Eu cobrava do Mauro reformas, adaptações, troca da parte elétrica, conserto das infiltrações do teto, e Mauro sempre dizia que ia ver, que ia ver e foi deixando levar, até o dia em que desisti de convencê-lo, minha irmã que tratasse disso com ele. Mas a quimioterapia dela não surtiu efeito... Clarissa estava fazendo pós-doutorado em cinema, me pediu pra usar minha sala para estudar um filme e me convidou para assistirmos juntos. Era um dia chuvoso de verão, fui ao centro da cidade buscar uns projetores que estavam no conserto. Fiquei preso no trânsito por causa de uma árvore que havia caído. Tentei ligar no celular de Clarissa dizendo que ia me atrasar, mas só caía na caixa postal. Momentos depois um dos funcionários do cinema me ligou dizendo ofegante e desesperado que houve um curto-circuito em uma das salas causado pela queima de um fusível. Minha sala havia pegado fogo e o teto desabara. Perdi o ar. Perdi os sentidos. Eu havia perdido Clarissa... Diferente dos meus filmes favoritos a minha vida não teve um Happy End. – houve um longo silêncio por parte de Arnaldo, que estava de cabeça baixa. Uma lágrima rolou por seu rosto. As luzes se apagaram. Os trailers começaram. Acendeu-se uma fresta de luz na escuridão. Com uma falsa voz entusiasmada tentando burlar a voz trêmula, Arnaldo disse: “Lira libertina, bom filme a todos". E se retirou da sala em passos melancólicos e arrastados pelo corredor da saída com sua lanterninha pifando. Aquilo era o fim. O fim.

Dedicado à Fernanda.

Um comentário:

  1. Me comoveu de verdade, cheio de sutilezas, você sempre me surpreende! Adorei.

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